quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A culpa é toda dela!

Há 54 anos eu fui o primeiro aluno de artes plásticas de Maria de Lourdes Mäder Pereira. Ainda na casa dela, vizinha no prédio da Rua Pompeu Loureiro em Copacabana. Era 1960 e eu tinha 6 anos. Em pouco tempo, ela fundou o ALAP - Atelier Livre de Artes Plásticas, que frequentei até os 16. Foi ela quem me formou um artista plástico, desde os primeiros desenhos até me incluir em exposições coletivas no Brasil - a primeira no então Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro - e no exterior (Bulgária, Itália, Hungria, França e na antiga Yugoslávia). Pelas mãos dela,
Muitos anos mais tarde, eu já na casa dos 30, formado Designer pela Escola de Belas Artes, voltei a encontrá-la e fui novamente seu aluno de pintura no CAC - Centro de Artes Contemporâneas.
Desde então, nunca mais tinha ouvido falar de minha mestra. Morei no exterior muitos anos, perdi contato.
Hoje, senti saudades. Pedi help ao Google. E reencontrei-a. Certamente, não está mais conosco nesta vida, mas a vi linda como há 54 anos.

Estas imagens foram extraídas do site Idade Maior - Vida e Memória (em http://www.idademaior.com.br/vida-memoria-1-marco.html)

Muita emoção. Foi ela que me ensinou a não me conformar com o que já existia, a sempre buscar algo novo, a nunca me prender aos conceitos e preconceitos, a entender que a arte contemporânea nunca morre - morremos nós, nunca a arte -, a acreditar que qualquer forma de arte está acima e além da História e independe dela. "Você pode buscar muitos caminhos pra se sustentar, dar conforto à sua família, mas nunca desista de desenhar, pintar, esculpir. Você nasceu para isso, Renato. Eu vi, eu sei."
Mestra, obrigado. Hoje, aos 60, vejo que cumpri sua predição. Já trabalhei em muitas áreas, várias longe das artes, mas sempre estive aqui e feliz. A culpa é toda sua, "Dona" Lourdes.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A gente sempre volta

Desde 2012 eu não vinha mais aqui. Coisas da vida e do trabalho... não dá pra explicar assim num só post.
Agora estou de volta, renovado e renovando. Arte, design, publicidade, esportes, origens, atualidades - política eleitoral não, não e não! - e outras coisas boas, bóra compartilhar.
I'm back!
E pra não ficar só no blábláblá, ouçam e deliciem-se com A Harpa Irlandesa de Brian Boru, o primeiro Rei Unificador da Irlanda:


Interpretação de Victor Santal.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Quem não gosta disso?

Já saiu o melhor filme publicitário do ano.



Bom de ideia, bom de fotografia, bom de animação e montagem, bom de som, bom de tudo.

Parabéns aos criadores Marcelo Reis e Guilherme Jahara e às equipes das produtoras Vetor Zero e Cream Studio (som).  Quem é que não gosta disso?

sábado, 2 de junho de 2012

Em casa que falta pão...

Não vou fazer o chavão "Eu já sabia", que é muito chato. Só desejo à renitente cartolagem rubro-negra e ao R-10 que encontrem seus destinos.



Peço a Deus que ambos - as(os) Amorins e os(as) Ronaldinhos - permaneçam bem longe de mim.

P.S. Zico, meu amigo, não é que você estava certo? Aquilo lá é uma corja mesmo!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Obrigado R10, obrigado Flamengo.

No dia 13 de abril de 2011, há quase um ano, eu escrevi aqui o post "O efeito-dominó dos Ronaldinhos", sobre o risco das contratações milionárias no futebol brasileiro (clique para ler na íntegra).

Reproduzo um trecho: "Nem o Ronaldinho Fenômeno estava, nem o Ronaldinho Gaúcho está (quem sabe estará?), em condições de praticar o esporte que os consagrou. Mas, devido à longa carência de ídolos no nosso futebol, as torcidas e a mídia receberam-nos como deuses (que foram, sim, mas que já não são) tal como incentivaram as empresas que bancaram seus patrocínios. (...) Se a moda pega, como parece que já está pegando, os marqueteiros vão inundar futebol brasileiro com fórmulas espetaculares quase nunca acompanhadas de investidores reais. (...) é melhor o futebol brasileiro parar por aqui. Seguir em frente vai ser andar pra trás. "

Um ano depois, graças ao indiscutível fracasso da "Operação Ronaldinho" no Flamengo, parece que os cartolas vão passar a pensar duas vezes antes de cometerem novas loucuras.



Por isso, enquanto muita gente lamenta, este blog comemora. Obrigado Ronaldinho Gaúcho por não esconder o que veio fazer no Rio. Obrigado Flamengo por não esconder o quanto são incompetentes os nossos cartolas. O futebol brasileiro agradece.

segunda-feira, 12 de março de 2012

100.000 anos de perdão

Ricardo que roubava o Blatter que roubava a FIFA que roubava o Valker que roubava o Rebelo que roubava a Mídia que roubava o COL que roubava a FIFA que roubava o Congresso que roubava a Dilma que roubava o Lula que roubava a FIFA que roubava a Dilma que roubava o Congresso que roubava o povo que roubava o Imposto que roubava o Congresso que roubava a Dilma que roubava o Ricardo que roubava o Valker que roubava o Blatter que roubava o Imposto que roubava o povo que roubava o Imposto que roubava a Dilma que roubava a FIFA que roubava o Valker que roubava Rebelo que roubava o Ricardo que roubava o COL que roubava a Fifa que roubava Dilma que roubava Blatter que roubava o povo que roubava o Imposto que roubava a FIFA que roubava o Ricardo que roubava toda a quadrilha...

segunda-feira, 5 de março de 2012

Os macacos Juan e Wallace

Na mesma semana, tivemos duas manifestações de racismo no esporte, uma em Minas Gerais e outra em Roma. A primeira executada por uma mulher, uma única mulher, torcedora de volei do Vivo-Minas contra o atleta Wallace do Sada-Cruzeiro no clássico local pela Superliga. A segunda da torcida racista-fascista do Lazio contra o craque brasileiro Juan da Roma no derby da serie A italiana.

Antes de desancar os devidos impropérios contra esses babacas, quero registrar que a operadora de celulares Vivo, patrocinadora do Minas Tenis Clube - o mais tradicional clube incentivador do volei do Brasil e um dos maiores campeões da Superliga - não se manifestou sobre o assunto. Dizia minha avó que "quem cala, consente". Fica a dica, Vivo.

A torcida do Lazio fez gestos de primatas em direção ao zagueiro brasileiro que, perplexo, mandou-os calar a boca com o dedo sobre os lábios. Ao final da partida, Juan se disse surpreso porque depois de 10 anos jogando na Alemanha e Italia, nunca tinha passado por uma situação semelhante. A TV mostrou nitidamente a facção da torcida que fazia os gestos. A polícia italiana não tem por que não prender todos eles. A única medida conhecida foi uma multa de 20 mil euros para o Clube. Nada contra os racistas.



Em Minas, até onde eu sei, nada aconteceu com a senhora ou senhorita que berrava "Macaco!!! Macaco!!!" pro Wallace. O craque da seleção agradeceu a Deus por não ter conseguido identificar quem gritava na arquibancada porque isto impediu que ele pulasse a cerca e enchesse a racista de porrada. A polícia não tá nem aí. A Justiça brasileira cagou e andou. De oficial, apenas uma observação da CBV que cogita pedir punição ao clube. Outra vez, nada contra a torcedora racista.

A melhor reação veio da equipe do Volei Futuro, de Araçatuba SP, a adversária seguinte do Sada-Cruzeiro. Vou repetir: A EQUIPE ADVERSÁRIA. Todos vestiram um uniforme preto, com inscrições contra o racismo e no lugar do nome de cada jogador vinha escrito Wallace, em apoio ao atleta discriminado na partida anterior.



Fica aqui uma lição pra esse bando de autoridades incompetentes, desinteressadas, corruptas e safadas que deviam estar todas na mesma cadeia que a mulherzinha desclassificada e racista. O esporte não precisa de vocês, seus (e sua) merdas.

Pra gente ter uma noção da enorme proporção da discriminação (qualquer que seja) social no Brasil e no mundo, só foi possível registrar o descontentamento contra uma única anônima racista filha-da-puta - uma só, gente! - porque uma equipe inteira - ainda mais a adversária - se manifestou. E foi só um manifesto, lindo, mas de prático, nada!

E você aí que não faz nada?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As aventuras de um ipanemense na Gávea (1)

Depois de 31 anos desfrutando Ipanema, lá vou eu morar na Gávea. Antes que pensem que isto é uma reclamação, informo que a Gávea sempre foi o segundo bairro carioca na minha preferência. E, a bem da verdade, não é que eu vá morar na tradicional Gávea, é mais precisamente no Baixo-Gávea. Se você não conhece o Rio, dê um google nos bares, restaurantes e botequins do Baixo-Gávea e compreenderá que eu tenho um grande futuro pela frente.

Ainda não mudei mas a diversão já começou ao descobrir que terei como porteiros os irmãos Genézio e Genázio, a quem apelidei de "É" e "Á". "É" é o do dia e "Á" é o da noite.

Descobri também muitas semelhanças com o meu local em Ipa. Aqui tenho a praça General Osório ao lado, lá terei a praça Santos Dummont na frente. Aqui uma estação do Metrô na porta, lá um ponto do ônibus do Metrô na porta. Aqui um supermercado Zona Sul ao lado, lá um Zona Sul em frente. Aqui, feira livre na praça às terças, lá às sextas. Aqui, comércio de bairro em volta, lá idem e mais dois shoppings. Só ficou faltando a praia, mas pra compensar ganhei o Jardim Botânico ao lado e o Jockey Club em frente. Se bem que a praia do Leblon fica logo ali...

Ponto a favor: da minha sala, verei a Pedra da Gávea e o Morro Dois Irmãos à direita, a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Morro dos Cabritos à esquerda e, embora não dê pra ver o mar, as ilhas Cagarras serão visíveis bem em frente.

Ponto contra: internamente, o apê é menor que o atual. Um quarto a menos e uma sala com metade do tamanho. Mas graças ao meus tempos de decorador, os espaços continuarão amplos e só terei que diminuir o rack da tv & som e trocar um sofá de três lugares para um de dois.

Amanhã começa a mudança. Os caras vêm cedo pra desmontar, empacotar, encaixotar e empilhar dezessete anos da minha vida. Depois de amanhã, eles voltam aqui e vão mudar tudo lá pra Gávea, desempilhando, desempacotando, desencaixotando e remontando tudo de novo.

Aí, sim, vai começar pra valer a aventura do ipanemense na Gávea.

E eu volto aqui pra contar tim-tim por tim-tim. A começar por "É" e por "Á".

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Se desliga, cara!

Você aí, que vive ligado nos notes, nos nets, nos tablets, nos smarts, nas redes, vê se se desliga um pouco. A vida real também é o maior barato!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quando o futebol brasileiro era bom

Quando o futebol brasileiro era bom, o Nilton Santos foi avançando ao ataque, foi avançando, avançando e, enquanto o treinador Feola gritava "Volta Nilton, volta Nilton!", fez um gol contra a Áustria na Copa 1958.

Quando o futebol brasileiro era bom, o Pelé reserva do Dida, o Garrincha reserva do Julinho e o Vavá reserva do Mazola passaram a titulares na Copa 1958 porque os jogadores Nilton Santos e Zito, entre outros, botaram o treinador Feola contra a parede: "ou eles entram ou a gente perde esta merda".

Quando o futebol brasileiro era bom, o treinador Tim, do Fluminense, armou sua mesa de botões pra mostrar aos jogadores as suas posições no campo contra o Flamengo. O atacante Rodrigo, vendo seu "botão" na intermediária, empurrou-o para a marca do pênalti e, batendo várias vezes com o dedo sobre o botão, sentenciou: "É aqui! É aqui que eu jogo!"

Quando o futebol brasileiro era bom, o Clodoaldo combinou mudar de posição com o Gérson – contra a ordem do treinador Zagallo - e marcou o gol de empate na semi-final da Copa 1970 contra o Uruguai. O Brasil foi à final e ganhou o tri-campeonato.

Quando o futebol brasileiro era bom, a Democracia Corintiana foi bi-campeã paulista em 1982 e 1983 com a auto-gestão dos jogadores, liderados por Sócrates, Zenon, Vladimir, Zé Maria e Biro-Biro, sem que ninguém consiga se lembrar quem foram os treinadores (*).

Quando o futebol brasileiro era bom, o Paulo César Carpeggiani pendurou as chuteiras e imediatamente foi ser treinador dos seus ex-companheiros de Flamengo: Zico, Leandro, Junior, Tita, Adílio, Andrade etc. Distribuiu as camisas e disse: "Joguem!". O Flamengo foi Campeão do Mundo Interclubes em 1982.

Estes e muitos outros exemplos da história do nosso futebol marcam um tempo em que os jogadores comandavam o espetáculo e a importância dos treinadores era secundária. Naqueles tempos, o futebol brasileiro era bom.

Hoje temos os 'professores', inflados na beira do campo, cheios de verborragia, munidos de aparatos eletrônicos espetaculosos e armados na disciplina militar (obedeça ou obedeça), que só servem pra dar aparência nobre à sua incapacidade cada dia mais nítida.



O atual ‘professor-mor’ Mano Menezes, no seu futebolês, propagandeia que a 'modernização' da Seleção Brasileira passa pela convocação dos craques "desde que eles se adaptem aos ‘nossos’ métodos, esquemas, sistemas, normas e projetos." Quer dizer, ele quer craques mas não quer que joguem como craques.

O futebol brasileiro não pode depender dos ‘professores’, como nunca dependeu dos treinadores. O futebol brasileiro precisa é que não atrapalhem os nossos craques que querem jogar sua bola. Resumindo: nestes tempos de ‘professores’ o grito da torcida é sempre “Burro! Burro!”, no tempo dos jogadores o grito era “Brasil! Brasil!”. Isto explica tudo.

(*) Mario Travaglini e Zé Maria foram os treinadores

terça-feira, 28 de junho de 2011

E você não acredita em conexão espiritual, né?

Deu no Daily Mail de 15 de março:

A volta do pesadelo: a deprimente destruição de Hiroshima repetida nas imagens dos rastros do tsunami.



(legenda das fotos) "1945 à esquerda e 2011 à direita: Os santuários xintoístas representam a conexão espiritual entre o povo e a terra. Os tradicionais portões Torii de entrada a estes santuários estão entre as poucas estruturas a sobreviver em Hiroshima há 66 anos e na aldeia de Otsuchi na última sexta-feira."

Por favor, céticos, qual é a parte da Engenharia que explica isso?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O jogo dos sonhos

Quando Sergio Pezzotta soou o apito final da Copa Libertadores no Pacaembu, não sabia que na verdade estava dando início ao mais fantástico jogo da história: o Barcelona x Santos que já está acontecendo nos sonhos de todos os amantes do futebol, seis meses antes das duas equipes se enfrentarem em campo na final do Mundial Interclubes da FIFA.

Este é um jogo perfeito. No campo dos sonhos, a disputa é entre o melhor time do mundo e o melhor time da história, não apenas um confronto entre Messi-Xavi-Iniesta e Neymar-Ganso-Elano. Neste campo entram também as chuteiras sagradas de Pelé e Coutinho, Maradona, Cruyff, Carlos Alberto, Pepe, Ronaldo, Romário, Robinho, Ronaldinho, Rivaldo...



Neste jogo imaginário, não tem bola na canela, carrinho, passe errado, chutão. Não tem taça, não tem título nem semi-final nem Mazembaço. Só passe fino, tabelinha, lançamento e golaço.

Um jogo que vai sendo construído e comentado nos bares, escritórios, esquinas, praças, parques, churrascos, mesas redondas da TV. Cheio de lençóis, canetas, defesas milagrosas, cabeçadas, letras, chilenas, dribles-da-vaca, bicicletas e aquela bola no cantinho da trave que-só-não-entrou-porque-Deus-não-quis?

Um jogo de sonho que vai ser jogado até dezembro, que só vai acabar quando, enfim, o juiz apitar o início do jogo verdadeiro e o Brasil inteiro acordar para a dura realidade da voz do Galvão Bueno.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A rainha solteira

Era uma vez um Rei muito popular entre seus súditos e admirado pelos reinos vizinhos. Depois de um longo reinado, ele resolveu que era tempo de descansar de suas obrigações reais. Para sua tristeza, seu filho gostava mais da vida real do que de trabalhar para merecê-la, então ele tratou de procurar na corte um sucessor de confiança, que fosse capaz de levar adiante o seu trabalho. Muitos de seus assessores e ministros, ávidos pelo poder, lutaram entre si para cair em suas boas graças. Tanta cobiça e inveja acabou por destruí-los a todos. Todos menos um. Aliás, uma. Sim, uma mulher. O Rei, então, sem mais demoras, proclamou-a sucessora do trono, apresentando-a como a futura Rainha e causando grande espanto e surpresa em todo o reino.

- Uma Rainha? – desconfiavam alguns – Nós nunca fomos governados por uma mulher!

- Quem vai ser o Príncipe-consorte? – indignavam-se outros – se ela nem marido tem!

Sim, o reino teria uma Rainha sem marido. O Rei convocou o clero para deliberarem sobre a questão. “Deixe, majestade, que eu cuide pessoal e discretamente deste assunto e o senhor não se aborrecerá”, declarou esperançoso o Cardeal e o problema foi posto de lado. O importante era a sucessão. Respeitando a vontade do Rei, a nova Rainha foi aclamada pelo povo. As festas da coroação duraram vários dias, com muita alegria e a promessa de comida e bebida para todos.

O novo reinado transcorria em harmonia com os súditos, e o reino parecia atravessar um período de mágica prosperidade. A plebe comia; a burguesia trabalhava; os negociantes prosperavam; a corte festejava; e os ministros enriqueciam, tudo como tinha sido planejado. E parecia não haver descontentes. A Rainha governava com autoridade, sempre aparentando competência e dedicação ao trabalho. Mas sua expressão não aparentava felicidade. Quase não sorria nas audiências e seus discursos, apesar de esperançosos, eram amargos. Estaria doente? O que lhe faltava? Seus súditos se preocupavam. A alegria daquele povo, que tantos motivos tinha para tudo festejar, não era capaz de contagiar a tão recomendada Rainha. O povo feliz tinha uma Rainha triste.

Aconteceu que, numa noite de lua cheia antes da chegada do inverno, a silhueta de um estranho condor foi vista numa das sacadas do palácio da Rainha por um soldado da guarda real. Logo a novidade correu o reino. Seria mesmo um condor? O dono de uma estalagem nos fundos do palácio jurava ter se deparado com o que parecia ser uma leoa ou uma loba, enquanto jogava fora o lixo da noitada. Uma das damas da Rainha relatou que vislumbrara um boto no fosso do castelo, mas não tinha certeza porque estava muito escuro. As beatas da paróquia persignavam-se por temor ao Satanás. Pescadores ouviram sereias, pastores farejaram serpentes. Nas tabernas, os homens junto a seus copos e as mulheres de poucas roupas não falavam de outra conversa. Quem seriam aqueles bizarros seres – talvez nem existissem, talvez fossem vários – que assaltavam as noites do palácio real?

O tempo passou e as lendas continuaram a ser contadas e recontadas no reino. E então já havia fadas, duendes, cavaleiros alados e toda sorte de feras e belas. Nenhuma delas comprovadas. Todas elas negadas veementemente pelo General da guarda real, pela Ministra Geral e pelo Cardeal. A própria Rainha nunca tocava no assunto, aumentando no povo a crença nas lendas. Não há registros de quanto tempo ainda durou aquele reinado, nem é sabido se o reino permaneceu próspero. Mas a verdade é que todo o povo percebeu – e ninguém negou – que, a partir daquela noite de lua cheia antes da chegada do inverno, a Rainha se tornou uma mulher feliz. E é a felicidade da mulher – acima da Rainha – que o povo feliz até hoje festeja.


Moral
A majestade está sinceridade do povo, não nas aparências da realeza.

Como garantir seu futuro político

O Congresso brasileiro pode ficar tranquilo com relação ao futuro. A nova geração está se preparando com perfeição para assumir a responsabilidade de bem representar a classe e honrar a imagem da casa.

sábado, 4 de junho de 2011

Dancing, not crying

Sem comentários. Assista.



Obrigado à minha amiga gauchíssima Ana Paula Loeblein - @APILoeblein - pelo delicioso presente.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Aí você sai do bar e...

Não é apenas o filme publicitário que é bom. O evento é melhor ainda. Enquanto as autoridades ficam produzindo comerciais desgracentos e inúteis, o Bar Aurora e o Boteco Ferraz dão uma lição perfeita e com bom humor.

Assista o vídeo até o fim. Você merece.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A noite que nunca existiu.

Ele morava no Rio, ela em Brasília. Ele era casado, ela tinha um namorado em Belo Horizonte. Ele tinha um perfil no Facebook, ela também. Ele gostava do perfil dela, ela também gostava do dele. Algumas vezes passavam muito tempo conversando no “bate-papo”. Tinham vontade de se conhecer pessoalmente, mas ela nunca ia ao Rio e ele nunca ia a Brasília.

Um dia, ela publicou no mural: “Daqui a quinze dias vou ao Rio e quero conhecer todos os meus amigos virtuais de lá”. Ele curtiu. Ela voltou a publicar no mural: “Chego no Rio quinta de manhã e o love só na sexta à noite. Amigos do Rio, que tal chopp quinta à noite?” Ele ficou ansioso.

Ela chegou ao Rio. Ele foi ao chopp. Como ela era linda! Como ele era interessante! Muitos chopps depois, alguém deu idéia de um lugar para dançar. Ela ficou animada. Ele não sabia dançar. Então, na saída do bar, ele se despediu. Foi a vez dela ficar ansiosa. Ele chamou um taxi. Ela não tirou o olho dele. Antes de entrar no taxi, ele virou-se para olhá-la mais uma vez. Ela continuava olhando para ele. Ele hesitou. Ela sorriu. Ele chamou-a com um discreto aceno de cabeça. Ela dirigiu-se ao grupo, beijou a todos e foi para o taxi com ele.

Ele sugeriu um drink no Skylab do Othon da Avenida Atlântica. Ela ficou encantada. Conversaram de mãos dadas na mesa da varanda sobre o mar. Ele lembrou a ela que era casado. Ela lembrou a ele que tinha um namorado em Belo Horizonte. Ele imaginou se deveria continuar. Ela duvidou se queria recuar. Desceram ao lobby e alugaram uma suíte. Ela pensou que estava louca. Ele lembrou que adorava loucuras.

Ele amou-a calmamente, ela calorosamente. Ele foi atento, cuidadoso. Ela foi carinhosa, delicada. Ele a olhava contra a luz da lua lá fora e admirava a visão. Ela ouvia a cadência dos suspiros e sussurros e os transformava em música. Amaram um amor tão suave quanto intenso, tão eterno quanto efêmero. Ele disse que queria gravar tudo na memória porque era uma cena que jamais se repetiria. Ela dormiu agarrada ao peito dele como quem quer levar consigo para sempre uma noite que nunca existiu.

Tomaram o café-da-manhã de mãos dadas, olhos nos olhos e a felicidade nos lábios. Um último beijo, longo, com os corações apertados da saudade antecipada. Despediram-se na calçada do hotel, ele para o seu taxi, ela para o dela. Não trocaram o último olhar na ilusão de garantir que sua história de amor iria ficar para sempre inacabada.

Não se apaixonaram nem se tornaram amantes, mas se amam. Nunca mais se viram. Ainda batem papo no Facebook, mas nunca citam a noite que nunca existiu.

Foi uma linda história de amor, dessas raras histórias de amor, que pelo menos há de deixar saudades.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A esperança de bem sofrer.

Vai começar tudo de novo. Vem aí o maior campeonato de futebol profissional do mundo – o Brasileirão 2011. Vinte clubes recheados de juvenis e veteranos, promessas e velhacos, técnicos professores, falastrões e gritões. E juízes de toleráveis a ladrões, jamais bons.

A imprensaiada esportiva nacional já está em polvorosa. Qual vai ser o campeão, quem será o artilheiro, com quantas rodadas será demitido o primeiro treinador, quantos treinadores terão sido demitidos ao final. E quem contratará quem, onde vai jogar fulano, quantos velhinhos voltarão lá de fora?

Nada disso me interessa, o que eu quero saber é o quanto o Fluminense me fará sofrer este ano. Sim, porque o papel histórico do Fluminense é fazer o torcedor sofrer no campeonato brasileiro (e não só).

O Fluminense vai começar o campeonato sem treinador titular. O nível das contratações realizadas até agora leva a crer que sem time titular também. Convenhamos que não é a maneira mais animadora de iniciar a “competição mais difícil do Universo”. Mas tem uma explicação: a julgar pelo que fez desde que tomou posse, desconfio que o Fluminense também não terá um presidente titular, não só neste campeonato mas em todo o atual mandato.

Mas o Fluminense é um clube de paixão às avessas, um clube cuja torcida aplaude o adversário “cucaracha” que acabou de tomar das nossas mãos um título de Libertadores da América em pleno Maracanã. Tenho impressão que a galera até gosta um pouquinho desse sofrimento pré-estabelecido, de nunca ser favorito e mesmo quando tem algum favoritismo ser coberto por uma certa dose de desconfiança.

Então, vamos lá! Que venha o Brasileirão! Vai ser sofrido, mas quem sabe não acaba bem?

(nota mental: na próxima encarnação, nascer espanhol e torcer pro Barcelona. Porra!)